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Fundos e Colecções do ARM

Apesar de se encontrarem no Arquivo Nacional os documentos mais antigos e valiosos de diversas instituições régias e eclesiásticas, que tiveram parte na administração deste arquipélago, o Arquivo Regional conserva documentação de grande interesse para o estudo da história e da cultura atlântica portuguesa, já que a Madeira foi o primeiro achado dos navegadores quinhentistas e sede do primeiro bispado ultramarino português, tendo desenvolvido múltiplas relações com o Reino, com as cidades do Mar do Norte e do Mediterrâneo e com as outras ilhas atlânticas.

Trata-se de um conjunto de fundos bastante diversificado, que permite captar diferentes perspectivas: a perspectiva oficial (aparente na legislação e na produção documental de diversas instituições, sob o Antigo Regime e depois da implantação da República), a perspectiva dos privados (famílias proeminentes, personalidades notáveis, associações e empresas diversas) e, finalmente, a perspectiva eclesiástica – desde logo a da Igreja Católica, que sempre teve um papel do maior relevo entre nós, no governo das almas, na assistência aos pobres e aos doentes, na educação e até na administração da justiça. A história das mentalidades e dos costumes não dispensa a consulta dos fundos dos conventos e mosteiros da Ordem Seráfica, para conhecer as circunstâncias das fundações e a evolução verificada na fidelidade à Regra e na prática das virtudes cristãs. Os arquivos das paróquias incluem, entre outros livros, os dos registos de baptismos, casamentos e óbitos, de importância sobejamente conhecida e os de numerosas confrarias, mediante as quais o povo cristão contribuía para o esplendor do culto e realizava obras de misericórdia. Da Igreja Presbiteriana e da Igreja Inglesa da Madeira, o Arquivo Regional guarda unicamente os registos paroquiais acima referidos (os da Igreja Inglesa sob forma de microfilme).

Os arquivos das câmaras municipais, com destaque para séries como os registos gerais, os livros de posturas e as actas das vereações, permitem analisar os mais variados aspectos da vida e da administração do arquipélago desde o século XV. Também os fundos das Misericórdias e o do Recolhimento do Bom Jesus são ricos para o estudo do quotidiano madeirense, particularmente da assistência aos desamparados e dos serviços hospitalares, desde o século XVI. Os arquivos das administrações concelhias (Funchal, Calheta, Ponta do Sol, Porto Santo, Santa Cruz e São Vicente) abrangem um período relativamente curto mas fértil em eventos, confrontos e alterações muito significativas (1834-1946). O arquivo dos Governadores e Capitães-Gerais (1683-1834) e o do Governo Civil (1834-1975) documentam as relações com o Governo Central, assim como o da Junta Geral do Distrito do Funchal (1836-1976), que é fundamental para o estudo das políticas do Estado Novo.

Os espólios pessoais e os arquivos de famílias oferecem um manancial de informações relevantes para o estudo de muitos temas, desde a personalidade e a acção de figuras prestigiosas ou destacadas, entre elas o Arcebispo D. Aires de Ornelas e Vasconcelos, o genealogista Henrique Henriques de Noronha, o Padre Fernando Augusto da Silva ou o Visconde do Porto da Cruz, até à genealogia de famílias da Madeira, ou a instituições como o regime de colonia ou o morgadio. A Igreja concorria com a Coroa na vigilância exercida sobre os administradores de vínculos, intervindo, por um lado, para preservar a dignidade do culto, por outro, enquanto garante da vontade dos instituidores: os processos de tomada de contas de capelas ilustram a sobreposição de competências e a dinâmica institucional do Juízo do Resíduo Eclesiástico e do Juízo dos Resíduos e Capelas, um tribunal cuja actuação ficou marcada por casos de corrupção e frequentes confrontos com administradores e com as autoridades eclesiásticas e civis.

 

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Entre os notários mais antigos figuram João e Manuel Tavira de Cartas (Funchal, século XVI), Bastião Álvares e Luís Álvares Riscado (Ribeira Brava, século XVI) e André Freitas (Porto Santo, século XVII). Deu-se prioridade ao tratamento dos fundos notariais, mas também dos paroquiais e dos judiciais, por serem os mais assiduamente consultados.
Foram incorporados neste Arquivo os fundos de duas instituições de ensino: o da Escolinha Alemã, fundada em 1955 pela Dr.ª Sara de Portugal da Silveira Henriques de Freitas, antiga Directora de Serviços de Bibliotecas e Arquivos; o interessante arquivo da Escola Médico-Cirúrgica do Funchal que, não obstante as dificuldades e conflitos que marcaram o seu funcionamento desde 1837 até 1910, data em que foi extinta, chegou a formar mais de duzentos médicos.

A colecção de genealogias integra alguns nobiliários pertencentes a diferentes arquivos de família e foi constituída para facilitar a prestação de informações sobre ascendentes e descendentes de madeirenses, um serviço muito solicitado.
A colecção de jornais inclui o conjunto doado pela empresa “Diário de Notícias”, com destaque para o primeiro periódico publicado na Madeira, o Patriota Funchalense (1821); mais de 240 títulos ilustram os combates políticos travados entre as correntes partidárias que tiveram expressão local nos séculos XIX e XX.

A biblioteca do Arquivo Regional integra abundante bibliografia sobre Cristóvão Colombo, uma interessante colecção de guias e relatos de viagens e outra de livros antigos, muitos originalmente pertencentes à Mitra do Funchal e especificamente ao bispo D. Gaspar Afonso da Costa Brandão, as livrarias de Nuno de Freitas Lomelino e do Dr. Nuno de Vasconcelos Porto; esta última contém algumas obras de referência fundamentais, como a PORTUGALIAE MONUMENTA HISTORICA, edições de fontes da Academia das Ciências de Lisboa e monografias de autores consagrados sobre variados e apaixonantes aspectos e figuras da História Nacional e sobre o Património Artístico Português, além de um significativo conjunto de obras e documentos sobre a Companhia de Jesus e de outro sobre a cidade de Lisboa.
Além das ordenações e leis outorgadas pelos reis de Portugal, o Arquivo Regional guarda: uma colecção da legislação produzida entre 1769 e 1926, fundamental para o estudo da história institucional e política do nosso país desde o despotismo iluminado à viradeira, desde as lutas entre partidários da Revolução e da Contra-Revolução, entre cartistas e setembristas, que marcaram a instauração do liberalismo e a agonia da Monarquia, à 1ª República; volumes da Revista de Legislação e Jurisprudência abrangendo os períodos de 1868 a 1881 e de 1901 a 1903, bem como os Diários das Cortes de 1821 e 1823, volumes do Diário da Camara dos Dignos Pares do Reino (1879 e 1884) e do Diário da Camara dos Senhores Deputados (1879), bem como o Código Administrativo e Estatuto dos Distritos Autónomos das Ilhas Adjacentes (1941).

A colecção de Documentos Avulsos compõe-se de mais de 1600 manuscritos, muitos ainda por identificar e que deverão um dia integrar fundos diferentes; merecem especial referência as cartas dos Duques de Viseu e os diplomas régios, como um alvará de D. Sebastião determinando que a sucessão das terras de açúcar se fizesse segundo o regime de morgadio (22.09.1562). Esta colecção contém documentos bem mais recentes mas igualmente interessantes, como o inventário dos bens de Manuel Caetano Pimenta de Aguiar.
Está em curso o tratamento das litografias, postais e fotografias que ilustram o quotidiano madeirense dos séculos XIX e XX, o património urbano e rural edificado e o património artístico insular.

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