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1. O Arquivo Regional da Madeira guarda documentação de significativo interesse para o conhecimento da personalidade, da vida durante o breve exílio na Madeira (134 dias) e da morte de Carlos I da Áustria, sendo de destacar:
a) A Oração fúnebre proferida pelo Exmº e Revmº Sr. Cónego A. Homem de Gouveia nas exequias solemnes promovidas em 27 d’Abril pela cidade do Funchal sufragando a alma de S.M. Imperial Apostolica Carlos 1º d’Austria e 4º d’Hungria – Tipografia Teixeira, impr.: Lisboa, 1922.
Trata-se de um documento bem expressivo da inteligência, da cultura e do talento literário do seu autor, que foi capelão e amigo do Imperador Carlos e figura marcante da sociedade do seu tempo – poliglota distinto, jornalista e professor, fundou o primeiro diário católico do Funchal (o “Correio do Funchal”) e à margem da sua carreira sacerdotal ainda exerceu diversas comissões de serviço público (como deputado da Nação nas sessões legislativas de 1905 a 1907 e presidente da Junta Geral do Distrito do Funchal).
A Oração fúnebre constitui sobretudo um testemunho fidedigno, sincero e detalhado, acerca do perfil moral e das virtudes do Imperador Carlos, e um dos primeiros, senão mesmo o primeiro, apelo à beatificação do soberano considerado por Anatole France como “o único nome digno e grande na guerra de 1914-1918”.
b) Notícias publicadas na imprensa madeirense da época, nomeadamente nos periódicos Vida Diocesana e Diário da Madeira, sobre a morte do Imperador e as cerimónias fúnebres organizadas por essa ocasião. A solenidade das exéquias, as manifestações públicas de pesar, o número de autoridades públicas e de pessoas de todas as condições sociais que acorreram a prestar a última homenagem a Carlos I e a partilhar a dor da sua família, revelam inequivocamente os laços mútuos de estima, carinho e respeito que em pouco tempo ligaram os madeirenses e a família imperial.
c) Em 15.10.04, o Sr. Manuel Rufino Teixeira teve a gentileza de oferecer ao ARM cópia de uma carta em que sua mãe, Senhora D. Leticia Teixeira, confia à Senhora D. Maria Helena Canavial as suas impressões àcerca das exéquias do Imperador Carlos I; o conteúdo desta carta confirma o extraordinário movimento de solidariedade e simpatia que se gerou em toda a ilha, mesmo nas freguesias mais distantes do Funchal e entre o povo mais humilde, em torno do monarca exilado.
d) A correspondência oficial mantida pelo Governo Civil do Funchal com os Ministérios do Interior, da Instrução e dos Negócios Estrangeiros, bem como com o Director Geral da Administração Política e Civil: esta correspondência documenta as negociações entre o Governo Português e a “Entente” relativamente ao exílio de Carlos de Habsburgo na Madeira, no epílogo da I Grande Guerra. Foi publicada na revista “Das Artes e da História da Madeira” sob o título Documentos inéditos sobre o exílio de Carlos de Habsburgo na Madeira por Alberto F. Gomes, e o seu interesse está, nas palavras deste escritor e jornalista, em revelar ser “em tudo digna de apreço a atitude do Governo Português, no tocante ao tratamento dispensado aos exilados”. A referida correspondência, acrescenta, “dá-nos o reflexo evidente da maior urbanidade e correcção. E nas medidas e atitudes menos esclarecidas, não há que responsabilizar inteiramente o Governo Português, posto que agíamos aqui, como é evidente, sob a inspiração da “Entente”.
2. Entre os muitos amigos madeirenses da Família Imperial austríaca exilada, contava-se a religiosa clarissa madeirense Madre Virgínia Brites da Paixão, que também morreu com fama de santidade (v. Otília Rodrigues Fontoura osc, Madre Virginia, uma vida de amor. Ed. Irmãs Clarissas, 2002), e que anteviu e comunicou à Imperatriz Zita que o seu marido morreria de morte natural, para não perecer às mãos de espiões que haviam desembarcado no Funchal (v. declarações do Bispo Emérito do Funchal D. Teodoro de Faria in Pedras Vivas - suplemento do Jornal da Madeira – de 22-08-04, p. 12.

Fotografias: Museu Vicentes
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